 |
 |
 |
 |
Nota biográfica
Luís Filipe Guerra tem 39 anos e é natural de S. João da Madeira. É casado. Tem dois filhos. Reside em Vila Nova de Gaia. É advogado, mediador de conflitos e tradutor/intérprete. Aderiu ao Movimento Humanista em 1986 e foi co-fundador do Partido Humanista em 1999, de que tem sido o Secretário-Geral. É também responsável da Secretaria da Europa e Direitos Humanos na Regional Europeia da Internacional Humanista. Como voluntário, tem desenvolvido a sua acção em várias localidades, especialmente Porto e Lisboa, e em vários países, nomeadamente Brasil e Moçambique, onde tem divulgado o ideário humanista e posto em marcha diversos projectos sociais.
Discurso de aceitação da candidatura
Porto, 21 de Junho de 2005
Caros amigos e companheiros:
Em primeiro lugar, quero agradecer a presença de todos, bem como as palavras das oradoras antecedentes.
Quero agradecer também o convite feito pelo Partido Humanista para me candidatar às próximas eleições presidenciais, desde logo pela confiança demonstrada na minha pessoa.
E quero agradecer ainda todo o apoio e os ensinamentos recebidos de humanistas de todo o mundo, não só agora como desde há cerca de vinte anos.
O momento e o lugar que escolhemos para anunciar a nossa candidatura presidencial reveste-se de duplo significado.
Hoje é o dia do solstício, o dia maior do ano, o dia em que o sol nos ilumina durante mais tempo, banhando-nos de luz e de calor. O solstício sempre foi celebrado entre os povos como um momento de mudança: mudança de estação, mas também mudança de situação. É, portanto, esta atmosfera cálida, luminosa e prometedora de mudança que invocamos para nos acompanhar nesta candidatura. Curiosamente, as eleições terão lugar precisamente na proximidade do seguinte solstício. Nessa altura, veremos se a longa noite da humanidade veio para ficar ou se, ao contrário, faremos despontar no horizonte dos portugueses a luz da esperança no futuro.
Por outro lado, estamos no coração da cidade do Porto, junto ao seu antigo porto fluvial. Noutro tempo, este lugar chamava-se Portus Cale e, como dizia o poeta, "daqui houve nome Portugal". Isso não quer dizer que esta seja uma candidatura bairrista ou regionalista. Este era um ponto de partidas e de chegadas, de trânsito, de intercâmbio e de abertura a novos mundos. Assim, não deixaremos de ter em conta essa máxima que sugere "pensar global e agir local", pois só dessa forma será possível dar resposta aos problemas que afectam as pessoas. Porém, além disso, estamos também a afirmar o valor da contribuição portuguesa para o mundo e a acolher e a agradecer o contributo de todos os que a este país chegam e ficam. Por outro lado, este lugar põe-nos em contacto com as nossas raízes populares, recordando-nos que é com o povo e para o povo que esta candidatura, e o mandato que porventura venhamos a receber nas eleições, serão levados a cabo.
Amigos e companheiros,
Esta candidatura é a mais improvável de todas.
Sou jovem e não tenho currículo político nem fortuna capaz de me catapultar para o cume do sistema político.
Porém, esta é uma candidatura que afirma a necessidade de novos protagonistas na cena política nacional e mundial, desvinculados dos caducos ideários do século XIX e das complexas teias de interesses económicos e corporativos que comandam este mundo e este país. É uma candidatura que se faz contra a ideia de que ser Presidente da República é uma espécie de prémio de carreira ou de pré-reforma para os políticos. É uma candidatura que se faz contra o subtil silenciamento da liberdade de expressão, de associação e de participação política às mãos de um sistema social e político em que o dinheiro é o valor central e no qual as pessoas, cada vez mais atomizadas, são convertidas em meros factores de produção e consumidores.
É, na verdade, uma candidatura que põe os direitos humanos e a democracia real como valores e preocupações centrais; que prioriza a coerência e a solidariedade como critérios de decisão; que afirma a não-violência como a única metodologia de acção aceitável; que se compromete com a igualdade de direitos e de oportunidades e com a não-discriminação.
Não é uma candidatura neutra ou amorfa. É uma candidatura que se reconhece no ideário humanista e que vê no papel institucional do Presidente da República o garante e o promotor do progresso e da justiça social no nosso país. Por isso, se eu for eleito, não deixarei de fazer uso de todos os mecanismos legais, institucionais e informais ao meu dispor para ampliar crescentemente a liberdade, a igualdade de direitos e de oportunidades e a não-violência.
Isso não quer dizer que eu me veja ou queira ser visto como uma figura providencial. Chegou o tempo de superar os modelos individualistas salvacionistas ou de inspiração neo-liberal e de afirmar o valor do trabalho em equipa. A mudança a que aspiramos só é possível mediante uma transformação pessoal e social em simultâneo, um esforço sustentado que nos involucre a todos e nos faça reconhecermo-nos mutuamente por partilharmos os mesmos valores e aspirarmos a um futuro comum. Esse projecto mobilizador pode e deve partir do Presidente da República, mas tem que se afastar definitivamente das imagens economicistas da moda (que não tocam no interior das pessoas): como se a fraternidade entre as pessoas pudesse brotar tão-só da necessidade nacional de conter o défice orçamental ou de sermos tão ricos como os mais ricos!
Amigos e companheiros,
Ao aceitar esta candidatura, é também a minha vida que ponho em jogo. Esta vida, curta e irrepetível, procura incessantemente um sentido. Será que vale a pena avançar com esta candidatura? Será que esta candidatura tem sentido? Para mim, esta candidatura justifica-se como parte de um processo de humanização do meio social e histórico em que me coube viver, como um meio de poder projectar para o mundo a intenção transformadora que me habita, como a forma de conectar a minha vida com esse Destino que tem movido os povos na sua melhor direcção evolutiva. Tomara que a minha candidatura possa deixar um rasto humanizador indelével neste país e nesta época. Para isso, preciso e conto com a ajuda inestimável de todos vocês, aqui presentes. Oxalá a minha candidatura constitua uma fonte de inspiração e um projecto suficientemente animador para guiar a vossa acção nos próximos tempos, proporcionando-vos alguma da paz, a força e a alegria que procuram e merecem.
Nada mais, obrigado pela vossa atenção...
|
 |